Você sabe o que é maithuna?

Conforme mencionei anteriormente vou começar falando da relação sexual e o Tantra

No Tantra, a relação sexual é denominada maithuna. O maithuna compreende, desde que haja intenção, oito maneiras diferentes de se estabelecer um contato sexual. São elas: olhar para uma mulher, andar com ela, falar com ela, pensar em fazer sexo, desejar a união sexual, propor-lhe tal união, ter a determinação de cumprir o ato e, por último, a efetivação carnal. Tudo isso faz parte do conjunto chamado maithuna. E conforme foi grifado acima, é interessante notarmos que, por ser a cultura hindu essencialmente brahmáchárya, os textos traduzidos nos últimos séculos estão sempre escritos sob uma ótica masculina!

Ao contrário dos costumes arianos, o Tantra não lida com questões morais e nem depende de modismos sociais, que se referem muito mais ao dharma do que ao karma (reveja isso no capítulo iii). Aqui não há dogmas nem muito menos culpa ou pecado, conceitos típicos das tradições patriarcais, cujas idéias restritivas no decurso dos séculos rebaixaram o status da mulher na sociedade.

Em contrapartida, ela ocupa um papel preponderante no contexto tântrico, principalmente na relação a dois. De um modo geral, é a mulher quem tomará a iniciativa para o sexo, contrariando o que ocorre na tradição brahmáchárya. Nesta, o homem comporta-se como caçador, enquanto a mulher como caça. Uma das maneiras de identificar a influência do Tantra numa escultura ou pintura hindu retratando um homem junto a uma mulher, encontra-se no fato desta estar por cima ou à frente do homem.

Para essa filosofia matriarcal, existem três tipos de mulher: mudrá, que simplesmente serve ao homem para efeito do exercício do maithuna; shaktí (esposa ou companheira), em igualdade de condições com o parceiro, circunstância na qual há uma troca de energias e ambos evoluem na senda tântrica; e o terceiro tipo, a dêví (literalmente, deusa), no qual a mulher domina as relações afetivas, profissionais, etc. Ela tem o poder de despertar no homem potencialidades até então desconhecidas, e até muitas vezes torná-lo totalmente submisso.

A relação sexual pode ser praticada no intuito de reverter os processos da natureza. Pode-se praticar sexo meramente como uma descarga fisiológica e um meio de preservação da espécie; ou ainda como uma alavanca de aprimoramento, evolução pessoal, e conseqüente benefício da Humanidade. Todas as linhas do Tantra ensinam técnicas e cultivam intensamente o maithuna, ampliando a duração do ato para o prolongamento do prazer. Porém, apenas a linha branca utiliza a relação sexual sem orgasmo.

O Contato Sexual sem Orgasmo

No Dakshinacharatantra, o contato sexual sem orgasmo é uma opção recomendada.

Em primeiro lugar, devemos esclarecer a diferença entre orgasmo e ejaculação, já que para a maioria das pessoas os dois significam a mesma coisa. Ainda mais que quase todos os autores de livros “tântricos”, influenciados por um sistema patriarcal, mencionam apenas a ejaculação. Essa, na verdade, nada mais é do que a emissão do sêmen, característica masculina. Ora, o orgasmo é a energia que se descarrega no final da relação e ejaculação é a matéria orgânica, o sêmen, que se elimina junto (ou não) com o orgasmo. O que se pretende no Dakshinacharatantra é aproveitar essa energia chamada orgasmo, em vez de sempre desperdiçá-la no término do ato, o que ocorre tanto na mulher quanto no homem.

Com sua postura desrepressora, o Tantra enfatiza e tira proveito da prática do maithuna, permitindo o desenvolvimento das potencialidades humanas. O que se ensina aqui há milênios, somente agora vem sendo confirmado através de pesquisas científicas feitas sobre a energia orgástica.

No período em que os animais estão no cio há um aumento da carga hormonal. Eles tornam-se então reprodutores em potencial, e tendem a não ficar doentes nem morrer prematuramente.

Algumas décadas atrás, foi feita uma experiência em laboratório com trutas. Num aquário circular e com um bombeamento de água para simular uma corredeira foram colocadas algumas fêmeas prontas para a desova. Nadando contra a correnteza, elas não paravam, não desovavam e nem se cansavam. Mais tarde, uma delas foi retirada e colocada num outro recipiente com água parada. E, tão logo desovou, morreu. Enquanto isso, as outras que continuaram nadando no aquário de água corrente permaneceram vivas por um tempo muito maior. Com esse ensaio, deduzimos o quanto a procriação pode pesar na balança entre a vida e a morte.

Sob outro prisma, verificamos também o que ocorre com algumas espécies de animais, cujos machos são mortos pela fêmea mesmo no ato da fecundação como por exemplo, o zangão, o louva-a-deus, alguns tipos de aranha, etc. Já que cumpriram o papel da fecundação, esses machos não têm mais utilidade para a sua espécie.

A natureza faz sempre o que for mais vantajoso para garantir a perpetuação das espécies. O que representa a vida de um indivíduo senão um piscar de olhos em relação à continuidade de sua espécie? Qual a importância de uma formiga, um lagarto, ou uma vaca, isoladamente? Todos podem ser facilmente sacrificados aos milhões, se o objetivo for a continuidade da espécie.

O que diferencia o ser humano do animal “irracional” é que o primeiro usufrui da liberdade para interferir nos processos naturais. Já o outro é levado pelas forças do instinto e quando sente o impulso fisiológico se acasala por meio de uma relação sexual trivial.

Na página seguinte, veja como o Dr. Fritz Khan, em seu livro A Nossa Vida Sexual (pág. 210), representa a excitação e o prazer do homem durante a relação sexual comum. Compare-o, projetado no gráfico maior, com a relação sexual desenvolvida no Tantra.

Analisando estes dois gráficos podemos ver que no primeiro há uma subida de excitação, uma brusca elevação que é o orgasmo e, em seguida, a depressão rápida até o nível zero. Já o segundo gráfico nos mostra que, antes da energia sexual chegar ao clímax e explodir em orgasmo, o praticante diminui a intensidade do contato, deixa que o corpo se restabeleça para, em seguida, dar continuidade ao exercício. Isso pode durar alguns minutos e se prolongar por várias horas.

Na relação sexual do Tantra, o que ocorre na esfera genital com a ampliação energética é um grande prazer que vai se espalhando e tomando conta de todo o corpo e o psiquismo do praticante.

Com o desenvolvimento da potência sexual e da contenção do orgasmo, pode-se entrar em níveis de consciência supra-humanos. Por isso é que o Tantra considera o parceiro sexual como uma divindade em carne e osso. Sem desperdiçar a força orgástica, de uma certa forma podemos dizer que, ao invés de se gerar um filho para o lado de fora, estivesse gerando uma nova pessoa do lado de dentro.

Tanto a linha negra quanto a linha branca do Tantra buscam a ampliação da energia sexual. Entretanto, há diferença de opiniões entre as duas: depois de um longo contato e de uma intensa satisfação, enquanto que, na linha negra tem-se o orgasmo no final da relação, na linha branca sugere-se a contenção do orgasmo. Segundo esse ponto-de-vista, o orgasmo nada mais é do que o fim do prazer: Omni animale post coitum triste est.

Na retenção orgástica aumenta-se tanto a força genésica que, simplesmente, a natureza preserva o indivíduo. Com isso, atenua-se tanatos, o impulso da morte e destruição; e intensifica-se eros, o impulso de vida. Tornando-se um reprodutor em potencial, possivelmente útil à espécie, é-lhe garantida uma vida mais longa e plena.

Dentre as consequências da exacerbação do prazer e do refreamento do orgasmo estão: o aumento do próprio desempenho sexual, a melhoria da saúde, o aumento da capacidade imunológica, ampliação dos sentidos, das percepções sensoriais e extra-sensoriais, dos reflexos, bem como, mais alegria e menos depressões, melhor produtividade no trabalho, nos estudos, nos esportes, etc.

Para usufruir da energia gerada pelo maithuna saudavelmente é preciso que se tenha toda uma infra-estrutura física e psíquica. Tal elaboração é obtida pelas técnicas do Tantra. E mais, o praticante de Meditações Ativas poderá exercer o sexo tântrico tendo uma outra motivação, além das conseqüências citadas. Nesse caso, a sua força sexual o auxiliará no despertamento da kundaliní e, conseqüentemente, o conduzirá ao samádhi, Ou Supraconsciência.

A linha branca, ainda, possui uma variante de Tantra sem contato sexual. Aqui, existem duas opções para se trabalhar a energia sexual. São elas: a via seca e a via úmida. A via úmida pode ser adotada pelas três linhas do Tantra (negro, cinza ou branco), enquanto que a via seca constitui mais uma opção da linha branca. Nela, cada pessoa tem a liberdade de fazer o que quiser com o seu sexo, inclusive a de não usá-lo, por quaisquer motivos.

Conquanto a via seca do Tantra se assemelhe à linha brahmáchárya, que não utiliza o sexo, existem diferenças marcantes que separam esses dois caminhos. Enquanto o seguidor da corrente brahmáchárya reprime sua sexualidade, o seguidor da linha tântrica a cultiva. Por princípio, o tântrico, via seca, opta por não ter contato sexual, enquanto que o brahmáchárya não o tem por achá-lo proibido. Um exemplo típico da corrente do Tantra branco, via seca, foi o Mestre Ramakrishna, que viveu no final do século xix d.C.

Na próxima semana vou falar um pouco sobre essas três linhas e mais para frente dar inicio ao Neotantra que a meu ver é o mais conhecido hoje em dia.

Namastê

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Terapeuta corporal e holístico formado em massoterapia pelo SENAC em São Paulo e Quick Massagem, Massagem Relaxante, Massoterapia Clássica, Massagem Bioemocional para depressão, Massagem Terapêutica, Massagem Desportiva, Ritual de Shakti, Yoni massagem.
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